Nasci a 21 de Novembro de 1977 no Porto, pelas 6h30 da manhã. O que faz de mim um Escorpião ascendente Escorpião. Claro que, como todas as mentes esclarecidas que me lêem, nunca liguei nada à astrologia. Mas sempre tive um secreto orgulho em pertencer duplamente ao signo mais temido do Zodíaco.

Diz a minha mãe que enquanto eu não me conseguia deslocar, era um amor de criança, mas que a partir daí nunca mais lhe dei paz. Comecei a gatinhar aos nove meses: foi sol de pouca dura a paz da minha mãe.

Da minha infância recordo os piqueniques no pinhal de Salgueiros, as pratadas de farinha de pau, o Saab 99 do meu pai, a canja de galinha ao domingo em casa dos meus avós em Ermesinde… O passado é mesmo um país estrangeiro.

A leitura foi uma paixão ardente que se manifestou mal cheguei à escola. Paguei-a com a precoce condenação ao estatuto de caixa-de-óculos. A partir daí, foi sempre a descer: mau de bola, muito acne, dentes salientes e separados, boas notas… o cocktail ideal para uma adolescência miserável.

Acabei por não ter direito à tal adolescência miserável que me esperava, porque aos doze anos embarquei à descoberta da Europa. Fiquei-me por uma adolescência deprimente, à sombra das nuvens de Bruxelas. Na Escola Europeia, liceu multi-nacional por excelência, fiz-me razoavelmente poliglota… e ardentemente patriota. O que não me impediu de namorar uma francesa com lenço Hermès ao pescoço.

Ultrapassado o acne e alinhada a dentição, fui em busca de um mundo onde as boas notas e a inépcia desportiva não fossem motivo de ostracismo. Encontrei Paris. Era para passar três anos: fiquei quase dez. Estudei ciências políticas e gestão de empresas; fui consultor, vendedor e professor; vagueei muito, namorei q.b. Bem, nunca se namora q.b.

Recordo a rue Saint-Guillaume, ler o Le Monde no Basile, a longa marcha do RER de Jouy-en-Josas até ao BâtZet pelo meio dos bosques francilianos. A Résidence André de Gouveia, Casa de Portugal para os amigos, e a revolução que por lá fizemos quando os desentendimentos entre a Gulbenkian e o director iam forçando o seu encerramento. Não faltou muito para okuparmos aquilo, mas graças à ponderação da nossa liderança trotskista, foi possível evitar tais extremos.

E o M’s Coffee Lounge, aquele salão colonial très british onde costumava jogar poker de dados aos sábados à tarde de volta de um bule de chá e um crumble de maçã com natas frescas… outro sítio muito bom para o crumble era o Café de la Place em Edgar Quinet, mas aí com um café-crème… por falar no Café de la Place, também lá se comiam bons crepes…

Podia ficar horas nisto, mas a verdade é que voltei a Portugal. Como sempre quisera. Durante alguns anos, cheguei a duvidar que alguma vez regressasse. Acabou por ser Jorge Sampaio a convencer-me: quando dissolveu a Assembleia da República, eu soube que tinha chegado a minha hora. Voltei, bati à porta da São Caetano e apresentei-me ao serviço: enviaram-me para a volta do líder, onde galhardamente fiz campanha lado a lado com algumas dezenas de jotas. Três semanas em que fiz amigos e companheiros para sempre. O PSD perdeu. Eu ganhei muito.

Hoje vivo e trabalho em Lisboa. Recorrentemente me perguntam se eu estava sob a influência de algum alucinógeno quando decidi regressar a Portugal. Vendo bem, ganho menos – muito menos – do que os meus colegas de faculdade, e há menos oferta de cinema. Mas aqui o apartamento é maior, os copos são mais em conta e o clima é mais agradável do que em Paris. A explicação fundamental, no entanto, é outra. Eu sei que nos tempos que correm até parece mal dizer isto, mas é a verdade nua e crua: eu regressei para servir o meu País.

E isso tem-me chegado.