(continuação de Interesse nacional).

Vimos que “nenhum regime político pode ter sucesso duradouro se não possuir mecanismos fiáveis de formulação, expressão e prossecução do interesse nacional”. Estes mecanismos encontram-se de boa saúde no Portugal de hoje? Penso que não. Haverá locus de reflexão estratégica com sentido nacional – sectores militares e diplomáticos, por exemplo – mas pouco articulados entre si, e sobretudo cada vez menos capazes de impregnar a comunidade política para além de uma lógica sectorial. A inexistência de uma comunidade epistémica do interesse nacional capaz de o considerar nos diversos sectores das políticas públicas acaba por deixar ao poder político campo aberto para pastorear a comunidade política segundo os impulsos do momento.

Há que reconhecer que, nos domínios da política externa – nas suas vertentes mais tradicionais – e da defesa, a subsistência nas estruturas do Estado de uma tradição estratégica longa de séculos tem permitido ao poder político inserir as suas opções numa leitura consistente do interesse nacional. Mas noutros domínios – nomeadamente no domínio da estratégia económica ou da organização territorial – a ausência de uma compreensão partilhada do que é o interesse nacional leva a situações completamente opostas.

No domínio económico, a ausência de sentido nacional tem levado o poder político a comprometer-se com apostas que relevam mais da especulação do que da estratégia: em 1995 Antonio Guterres decretou que a prioridade máxima era o Brasil. Em 2005, José Sócrates achou que afinal era Espanha, Espanha, Espanha. Depois das notáveis falências da Águas de Portugal no Brasil e do impacto que a recessão económica espanhola terá sobre o fim do mandato socrático, o que virá a seguir? Ninguém sabe, porque não há um quadro coerente e partilhado de reflexão estratégica nacional.

No domínio territorial, a situação é a inversa: a inércia das tendências pesadas que moldam o desenvolvimento do território nacional impõe-se com facilidade a políticas públicas incapazes de se inscrever no tempo longo que só a consideração do interesse nacional permite. O resultado é um território cujo ordenamento não corresponde a nenhuma estratégia em particular, e certamente que não a uma estratégia que corresponda ao interesse nacional.

(continua).