Estamos em recessão. Os estabilizadores automáticos vão intervir, o défice vai aumentar e a dívida pública também. Precisamos de políticas de estimulo económico que vão para além dos estabilizadores automáticos? Precisamos. Elas custam dinheiro? Custam. Onde se vai buscá-lo? Concerteza à dívida pública. Até aqui eu consigo seguir o raciocínio pró-dívida.

Mas não consigo – se calhar é defeito meu – olhar para o endividamento do Estado como um saco sem fundo. Esse caminho – que é o caminho que o Governo  trilha ao assumir 35 mil milhões de euros em compromissos financeiros – parece-me inútil e perigoso. Inútil, porque o grosso da despesa associada às grandes obras não vai intervir imediatamente, e portanto não contribui para resolver a crise no imediato. Perigoso, porque ao aumentar brutalmente o nível dos compromissos financeiros do Estado, vulnerabiliza-nos muito para além do razoável.

O que me parece útil e prudente é focar o inevitavel acréscimo de despesa em medidas que tenham um efeito imediato e relevante na economia privada, mas não criem compromissos rígidos de despesa. Um exemplo seria uma redução significativa dos prazos de pagamento a fornecedores do Estado e das autarquias: essa medida agravaria o défice no imediato, mas não a situação patrimonial do Estado. Sobretudo, essa medida contribuiria muito mais para a sustentabilidade do emprego em Portugal do que o lançamento de grandes obras.

A grande diferença entre PS e PSD na forma como encaram a crise está precisamente aqui: o PS encara a crise como uma oportunidade de expandir o Estado, a sua intervenção e o seu controle de forma estrutural e  irreversível. O PSD encara o Estado como um agente que pode amortecer o impacto social da crise no curto prazo, mas que não deve expandir-se a expensas da sociedade civil. São estas opções que se vão defrontar eleitoralmente em 2009. A escolha é clara.