Caro João Galamba, é possível que eu não faça a mais pálida ideia do que raio estou a falar, como alguém elegantemente sugeriu. E creia bem que agradeço o préstimo que teve em me recordar – e já agora, a toda a direita – como funciona o mercado. De tanto decorar as cotações da Bolsa no Jornal de Negócios, a memória vai-nos falhando para o resto…
Mas se me permite a insistência, estou em crer que o João Galamba subestimou a genialidade de Pedro Sales. É que eu vejo no conceito saliano de dinheiro-promessa algo de fundamentalmente diferente do já clássico conceito fiduciário de dinheiro, a que o João acertadamente se referiu como “um dos pilares fundamentais de qualquer mercado de capitais”. Pedro Sales não se limita a referenciar esse conceito aborrecidamente positivista: vai muito mais longe, introduzindo uma dimensão de simultaneidade intertemporal que transgride a temporalidade hegemónica das sociedades capitalistas. É este o golpe de génio.
Repare que Pedro Sales não diz “há uma promessa de que o dinheiro venha a existir no momento em que é devido ao pensionista”. Não: isso seria demasiado fácil! O que Pedro Sales afirma é “o dinheiro existe. É a promessa”. Uma evidência para Pedro Sales, mas uma verdadeira revolução copérnica para a ciência monetária. Na realidade, para toda a ciência económica.
Agora sim, também eu acredito que um outro mundo é possível. Um mundo em que dinheiro futuro – pela mediação de uma promessa – ganha existência no presente. Vou já experimentar à hora de almoço.
24 Setembro, 2008 at 10:32 am
O que o Pedro Sales é demasiado óbvio. O Vasco fugiu da questão e refugiou-se na ironia, por sinal fracota. Vou-lhe contar um segredo, caro Vasco: quando deixarem de nascer bebes o mundo acaba ( para a raça humana e não só!)
24 Setembro, 2008 at 10:35 am
Errata: O que o Pedro Sales diz é demasiado óbvio.
24 Setembro, 2008 at 10:41 am
Bang bang, claro que o que o Pedro Sales diz é óbvio. É, aliás, um verdadeiro ovo de colombo. O génio está justamente nas coisas simples.
24 Setembro, 2008 at 11:10 am
Vasco,
O dinheiro dos seus depósitos também não existe no sentido de ‘existir’ que lhe quer dar. Mesmo as garantias são promessas. O Juro, como preço intertemporal do dinheiro, antecipa o futuro. Os mecanismos de ‘promessa’ de bancos e do Estado têm naturezas distintas, mas temporalmente são ambos promessas. Não há aqui nenhuma revolução copernicana, mas apenas uma precipitação sua. Custa-lhe assim tanto reconhecer que se enganou? Havia outros formas de criticar o que o Pedro Sales escreveu, mas não a que o Vasco escolheu.
Cumprimentos,
Joao Galamba
24 Setembro, 2008 at 3:47 pm
Caro João,
ter-me-ei precipitado? Admitamos que sim. Admitamos que o Pedro Sales não quis dizer que o dinheiro da Segurança Social “existe” num sentido literal (diferente de sentido material, obviamente). O que ele terá querido dizer então foi qualquer coisa como “há uma promessa de que o dinheiro venha a existir no momento em que é devido ao pensionista”.
Se assim for, com muita pena minha concederei que afinal o Pedro Sales não é um génio. Será tão-somente mais um blogger que na ânsia do taco-a-taco com o João Miranda, acabou por dar um passo em falso (acontece aos melhores – até a mim, que me terei precipitado a tomá-lo por um génio).
É que se admitirmos que a promessa politicamente garantida do Estado não cria dinheiro hic et nunc, temos de considerar que de facto esse dinheiro não existe. Pode vir a existir, mas não existe.
E se o dinheiro não existe, subsiste a questão: qual a melhor forma de garantir que todos têm direito a receber pensões decentes depois de uma vida de trabalho? Um palpite: brandir o valor salvífico de promessas políticas talvez não seja a melhor solução.
Um abraço,
Vasco Campilho
24 Setembro, 2008 at 8:25 pm
Tenho outro palpite. Brandir o valor salvífico das promessas de empresas como a AIG talvez não seja a melhor solução.No fim de contas, o garante é sempre o Estado, essa entidade que não é de bem mas paga as contas da AIG…
24 Setembro, 2008 at 9:39 pm
Caro Pedro, conjugando os nossos palpites, acho que concordamos em afastar os valores salvíficos da discussão sobre o futuro das pensões de reforma. Estamos a progredir, pelos vistos.
24 Setembro, 2008 at 11:04 pm
[...] não é uma “genial” invenção “pós-moderna” do Pedro Sales, nem constitui uma autêntica revolução copérnica para a ciência monetária, sendo até um dos alicerces de todo o sistema financeiro. A boa é que são “concepções” [...]
25 Setembro, 2008 at 2:01 pm
[...] de resposta 25 Setembro 2008 | por João Galamba Por isso eu continuo a perguntar: neste mundo cão onde o dinheiro não nasce nas árvores nem na boca dos políticos, qual a melhor [...]