Continuação de Uns patriotas e O único guardião.

Nos dois últimos capítulos procurei mostrar que 1) a subida da extrema-esquerda serve a estratégia do PS de se posicionar como único partido indispensável à governabilidade em Portugal, mesmo à custa da estabilidade governativa, e que 2) o PSD foi o motor da estabilização do sistema de partidos através da sua bipolarização, mantendo-se hoje como o seu guardião sistémico.

Enquanto único partido de facto interessado na bipolarização da vida política nacional, o PSD é o guardião sistémico deste traço fundamental do nosso sistema de partidos. O que quer isto dizer? Em primeiro lugar, que a bipolarização depende mais dos resultados eleitorais do PSD do que de qualquer outro partido. Sejamos claros: um sistema de partidos bipolarizado pode sobreviver com um PS temporariamente nos 20%, desde que o PSD seja maioritário. Mas não pode sobreviver com um PSD significativamente abaixo dos 30%, mesmo que o PS seja maioritário.

No plano da competição partidária – instrumental para a aplicação de um projecto político – o PSD deve ter como objectivo cimeiro preservar o carácter bipolarizado do sistema de partidos, quer ganhe ou perca as eleições. Este objectivo tem impactos ao nível da estratégia eleitoral, do posicionamento ideológico e da panóplia de coligações admissíveis.

Ao nível da estratégia eleitoral, o PSD deve reencontrar-se com a orientação que lhe garantiu as suas maiores vitórias: a conquista do eleitorado central. Portugal é, no panorama político europeu, dos países onde tem maior expressão um eleitorado central flutuante, pouco ideológico, pouco partidário, altamente reactivo à conjuntura, e capaz de voto estratégico. Não se ganham maiorias em Portugal sem a conquista deste eleitorado.

Mas para o fazer no actual contexto, o PSD vai ter de rever o posicionamento ideológico da sua mensagem política, sob pena de continuar a afastar-se do eleitorado central como nos últimos 15 anos. Porque o centro já não é o que era. Hoje, a competência já não é reconhecida como valor político diferenciador. É nas políticas e nos valores que se deve marcar essa diferenciação. Partindo da matriz genética do PSD, com as suas componentes social-democrata, liberal e personalista, parece-me hoje claro que a conquista do eleitorado central passa por um reforço da componente liberal do discurso do partido.

Como salienta João Cardoso Rosas, à direita como à esquerda a aproximação ao centro faz-se pela adopção de posturas mais liberais. Para o PSD, um projecto de revitalização económica baseado no reforço da liberdade de empreender ancora o eleitorado mais identificado com a direita, enquanto que a abertura liberal no domínio dos costumes e da vida privada cria pontes com um eleitorado urbano e central que neste momento não nos ouve. É este, creio eu, o caminho da reconquista do eleitorado central.

Mas a conquista deste eleitorado pode tardar, ou pode não chegar para assegurar a maioria absoluta. Ora, o comportamento coligacional tem um impacto fortíssimo no sistema de partidos. Por isso, o PSD não pode considerar a possibilidade de coligações pré ou pós-eleitorais sem a enquadrar numa estratégia de longo prazo que assegure a preservação do carácter bipolar do sistema de partidos. Esse enquadramento pode resumir-se numa única regra de conduta: o PSD só deve integrar soluções governativas que se constituam como mínima coligação vencedora e em que a liderança lhe seja reservada.

Assim, se for possível governar sozinho, o PSD não deve coligar-se. Se for necessária uma coligação para que o PSD possa liderar um governo, o PSD deve constituí-la com o(s) partido(s) mais pequeno(s) que permitam atingir a maioria. Se o PSD for solicitado para integrar uma coligação que não lidere, deve recusar participar.

Resumindo: para contrariar a estratégia de polarização e fragmentação do espectro político português prosseguida pelo PS com a colaboração da extrema-esquerda, e assim salvaguardar a estabilidade do sistema partidário português, o PSD deve orientar a sua estratégia eleitoral para o eleitorado central, reforçando a componente liberal do seu posicionamento ideológico, e adoptando regras claras de comportamento coligacional que inviabilizem qualquer tipo de subalternização política.

Temos um ano.