Deve ter sido em 1995 ou 1996. Uma greve de camionistas paralisou a França durante umas duas semanas. Os camiões portugueses e espanhóis tiveram de ficar na fronteira de Biriatou; os camionistas portugueses presos nas estações de serviço em França, sem ter o que comer ou com que se aquecer – recordo-me que era Inverno – enchiam os telejornais da RTP de reportagens condoídas com a sua triste sorte. Quando a greve amainou em França, foi a vez da Espanha: aí os únicos prejudicados foram os portugueses, que continuavam a não poder passar para a Europa, sob pena de levar pedrada da grossa.
Já o bloqueio espanhol esmorecia quando houve notícia de uma concentração de camionistas em Vilar Formoso. A reacção das autoridades, escaldadas por um mês de bloqueio fora de portas, não se fez esperar: ainda os camionistas não tinham conseguido bloquear nada que se visse que já a GNR lhes tinha lançado os cães-polícia às pernas. A coisa resolveu-se antes do Jornal da Tarde, e no Telejornal do dia seguinte já ninguém se lembrava do chófer meio ensanguentado a queixar-se da canzoada.
Recordo-me de na altura ter ficado orgulhoso do Governo português – ainda por cima era o Guterres – e de dizer aos meus colegas franceses que “estão a ver, em Portugal é uma limpeza. Com o Estado de Direito não se brinca”. Alguns deles, habituados a simpatizar com bloqueios de tudo e mais alguma coisa, acharam-me assim um bocado para o bárbaro. Outros, um pouco exasperados com a leniência do seu próprio Governo relativamente a tudo quanto é greve, acharam que os portugueses é que a sabiam toda.
Olhando para trás, eu próprio tendo a achar que exagerei na exaltação da “limpeza” policial. A húbris da juventude, talvez… Mas quando vejo o que acontece quando ninguém intervém para defender a ordem pública, fico com saudades do tempo em que até Guterres tomava decisões.