Continuação de Uns patriotas.
Disse no capítulo anterior que o PS prefere um sistema de partidos instável no qual detém a supremacia a um sistema de partidos estável em que é forçado a competir pelo poder. Não tenho dúvidas, portanto, que a estratégia do PS é em grande parte responsável pela possível mudança de 2009. Mas serão os restantes partidos políticos inocentes nesta história?
Evidentemente, não. PCP e BE, desde logo, porque são parte interessada no seu próprio reforço eleitoral. Mas também não lhes podemos levar a mal que façam pela vida. O CDS, pela sua pouca relevância neste contexto, reterá algum grau de inocência em matéria de sistema de partidos. Mas o PSD terá também uma pesada responsabilidade na involução para um sistema de partidos de pluralismo polarizado, se esta se vier a verificar.
Essa responsabilidade advém-lhe de ter sido o grande promotor da bipolarização do espectro político português, primeiro com Sá Carneiro e a AD, depois com Cavaco Silva e as suas maiorias absolutas. E na realidade, o PSD é o partido político que mais consistentemente revelou o seu apego à bipolarização e à estabilidade governativa que esta permite.
Desde que as Opções Inadiáveis foram derrotadas, o PSD sempre rejeitou estratégias de partido-charneira, almejando a hegemonização do espaço político à direita do PS. O parêntesis do Bloco Central, assumido por motivos – esses sim – patrióticos, foi encerrado antes que pudesse ter consequências de monta para a estratégia do partido, isto é, antes das presidenciais de 1986. E em 1987, a maioria absoluta consagrou a alteração dos equilíbrios do sistema de partidos, que viria a ser confirmada com a alternância de 1995.
Este sistema que temos desde 1987, em que dois partidos de tamanhos comparáveis alternam na liderança de governos de maioria, tem claramente o cunho do PSD. Foi o PSD que o quis, e foi o PSD que o impôs com as suas vitórias. O PS não teve durante vinte anos outro remédio senão aceitá-lo e competir pelas suas regras. Mas à primeira oportunidade, mostra preferir o regresso ao sistema anterior.
Tomando o PS esta atitude, cabe ao PSD apresentar-se como o único guardião do sistema de partidos bipolar. Estará o PSD pronto para isso?